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Archive for junho \08\UTC 2011

Pouca gente é capaz de imaginar que a poucos km do centro de Jacareí, à beira da
Represa do Jaguari, vizinho de nós portanto, exista o que nos foi dado ver hoje.

Motivado por verdadeiro amor pela natureza, e mais especificamente pela natureza do Brasil, um descendente de emigrantes austríacos chegados ao Brasil na década de 1920, não bem aqui, mas a terras de Goiás, adquiriu grande área à beira da Represa do Jaguari, com o sonho, dizia ele, de fazer alguma coisa pelo bem do país que acolhera seus pais. Diretor de uma multinacional, mora hoje nos Estados Unidos, mas não vê o momento de poder voltar e morar nesse pedaço de chão que já é bonito, mas que está deixando mais bonito ainda.

São aproximados 8 alqueires com um pouco de campo, pedaços de mata virgem, grande parte de mata naturalmente reflorestada – matas que se refizeram pela própria força da natureza -, e áreas com reflorestamento feito pelas mãos do homem: mais de dezessete mil mudas já plantadas.

Depois de percorrer uma estradinha sinuosa e bem íngreme em alguns pontos, chega-se aonde estão construindo o que será a portaria do Projeto. Está-se ali a uma altitude de mais ou menos 600m. Recebido carinhosamente pela mãe do proprietário, dona Ilze, e por dois outros senhores que nos acompanhariam, o grupo foi logo em seguida convidado a subir, a pé, por uma estradinha calçada de pedras e protegida num dos lados por um corrimão original, feito de troncos de eucalipto tratado de uns 25 cm de diâmetro, cuidadosamente envernizados, encimando não menos grossas estacas também de eucalípto. Uns 300m de estradinha assim, sempre morro acima, e depois se entra numa larga trilha dentro de uma mata que em 30 ou 40 anos naturalmente se refez, em um terreno que já fora um cafezal. No meio dessa mata, e na parte mais alta do terreno, ergue-se uma majestosa torre de 26 m, também construída de toras de eucalipto, essas mais grossas ainda que as do corrimão, e erguidas apenas com a ajuda de carretilhas, sem qualquer outro maquinário. Foram sete meses de trabalho diuturno de cinco operários piauienses.

Bem, mas a torre não está ali simplesmente como beleza a ser admirada. Quase 150 degraus levam ao seu topo. O grupo todo era formado por jovens, sendo eu o menos jovem. Os dois senhores que nos acompanhavam logo começaram a subir. Não podíamos passar vergonha e os seguimos. Aliás, alguns mais afoitos logo chegaram ao alto. Consegui não fazer feio e também cheguei entre os primeiros. De lá de cima, 360 graus de vistas deslumbrantes: grande parte da represa, condomínios de alto padrão margeando boa parte do lado oeste, marinas, jardins, águas faiscantes ao sol, penhascos dando direto na água e os mil tons de verde das matas matizados a todo canto pelo claro das folhas das embaúbas. Mais ao fundo, São José dos Campos, Jacareí e um pedaço de Igaratá meio envolto em névoa. Até a Pedra do Baú se avista em dias limpos.

De volta à portaria, encontramos o sr. Alexandre, marido de D. Ilze e com ela a alma de todo esse empreendimento. O grupo foi convidado a aboletar-se nas carrocerias de duas camionetas, que nos levaram para próximo de onde fica o viveiro de pássaros, o coração do projeto. Apaixonados por pássaros, D. Ilze e sr. Alexandre não estão ali exatamente para prender aves. Gaiolas são coisas de que nem querem ouvir falar. Mas, então, e o viveiro de pássaros? Trata-se na verdade de uma enorme armação de ferro, cercada e coberta de tela, construída dentro da mata, onde são recuperadas aves apreendidas de quem ilegalmente as tirou da natureza um dia. Estão ali para se readaptarem ao seu meio ambiente, reaprenderem a voar, a buscar seu alimento na própria natureza. Autorizados e monitorados pelo IBAMA, que os visita periodicamente, e tendo à frente o Tomás, um terceiranista de Biologia, eles acompanham ininterruptamente todo o desenvolvimento e recuperação dessas aves e, ao sentirem que estão prontas para voltar a seu habitat natural, eles as soltam. Na região mesmo, se são daqui, ou na região de onde são. As Araras Canindé, por exemplo, belíssimo animal de plumagem azul no dorso e nas asas e amarelo vivo no peito, são levadas de volta ao pantanal matogrossense.

Onde as camionetas nos deixaram, a uns 300m do viveiro, há uma espécie de casa de caseiro onde se guardam ferramentas, com uma cozinha bem montada e limpíssima, e um grande pote de água, que certamente vem de alguma grota do terreno. Límpida, transparente, inodora, fresquíssima! Todos beberam! Líquido precioso que chega às torneiras de nossas casas já um tanto deteriorado, e que está entre os bens em extinção. Foi aí que nos foi apresentado o Tomás. Primeira recomendação: se alguma ave se achegasse muito perto de nós, não lhe devíamos dar atenção. São aves já tão “humanizadas”, diz ele – algumas certamente capturadas ainda filhotes em seus ninhos –, que precisam reaprender a ser animais. E não deu outra: mal chegamos à porta do viveiro, uma maritaca sentou-se no ombro de um dos rapazes do grupo. Tomás a tirou com dificuldade e ela foi então para seu ombro. Sr. Alexandre veio ajudá-lo e conseguiram espantá-la dali. Dentro do viveiro, há um tucano de bico verde – espécime menor que o de bico amarelo – que já foi solto duas vezes, mas não conseguiu readaptar-se à natureza. Provavelmente, não sairá mais dali. Sementes de girassol e outras, armazenadas em barricas, junto com frutas, inclusive algumas retiradas das matas, formam sua ração diária cuidadosamente distribuída em comedouros. Bebedouros com água corrente vinda da mata estão espalhados pelo viveiro.

O viveiro tem áreas separadas para as diferentes aves: tucanos, araras, papagaios e maritacas foi o que vimos. Já houve ali outras espécies, mas já foram devolvidas à natureza. É o início de um projeto que caminha devagar, mas dentro de regras rígidas e que tentam interpretar os “sentimentos” desses animais, para ajudá-los na sua volta à vida selvagem. Por ora, o IBAMA autorizou quatro visitas: duas dia 06/06, e mais duas dia 08/06, uma de manhã e outra à tarde.

Além do ar puro da mata que respiramos, respiramos também um clima de apaixonado amor pela natureza. Essa natureza maravilhosa que Deus nos deu, para nos alegrar a vista e o coração, e para com ela convivermos da maneira mais natural possível, mas que nosso egoísmo e falsa compreensão do bíblico “dominai a terra” desrespeitam, depredam, violentam e matam. Ah, bicho homem, se pensas que para vencer como humano e único ser da terra dotado de inteligência é assim que precisas te comportar, melhor será que te lembres que foste formado do barro, desças do falso pedestal que construíste, te integres mais à natureza e te “animalizes” um pouco.

Obrigado D. Ilze, sr. Alexandre, por essa grande lição de “animalidade” que nos dão!

Antonio Bicarato
06/06/2011

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Quase três km a pé da minha casa até a sua, para nos encontrarmos, logo ao cair da noite, depois de sua saída da fábrica, no nosso primeiro Dia dos Namorados passados juntos.

Não me lembro em que dia da semana caiu o Dia dos Namorados de 1962. Qualquer que tenha sido o dia, porém, desci até sua casa levando um bilhetinho de amor, que começava igual a tantos outros que depois escrevi para você: “Mein Liebchen”, meu amor, mais precisamente, meu amorzinho.

Num simples papel de carta, com as margens enfeitadas com uns traços curvos, que em si certamente nada tinham de belos, mas que eram feitos para ajudar pobres palavras a expressarem os sentimentos que me iam no coração: esse foi meu primeiro presente dado a você. Em troca, você me deu duas fotos suas, você em dois ângulos diferentes, mas com o mesmo sorriso. Um sorriso lindo de quem estava feliz.

Tenho-as vivas diante dos olhos até hoje: rosto de boneca, morena, olhos castanhos, penetrantes, com um brilho que era só deles, boca perfeita, tudo emoldurado por cabelos escuros, quase negros, caindo abaixo dos ombros, e que logo você descobriu serem para mim uma atração especial.

Hoje, Benê, é também meu primeiro Dia dos Namorados… sem você! Sem um rosto para contemplar, olhos para mirar, cabelos para tocar, mãos para afagar. Hoje ainda sonho, como sonhava, só que com a diferença de que, então, o sonho, em muitos momentos, se tornava realidade palpável, visível, audível… enquanto hoje só de lembranças vive meu coração. Sonhando, então, eu encontrava você. Hoje sonho e só encontro saudades. Saudades dos namoros de então que, espero, um dia se repetirão, mas na eternidade. Espere-me, Benê, espere-me, e um dia nosso reencontro acontecerá… para nunca mais terminar!

Toninho
(Semana antes do dia dos Namorados de 2011)

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Era noite. A saudade já tinha ido dormir, mas alguém a acordou colocando o CD Amizade Sincera, do Renato Teixeira e Sérgio Reis. Uma de suas faixas traz Paula Fernandes interpretando Tristeza do Jeca: “Nesta viola eu canto e gemo de verdade, cada toada representa uma saudade!”

Tristeza do Jeca… antológica moda de viola, que sempre desperta em mim a alma de caipira que sou de nascença. Primeira moda sertaneja que aprendi, e foi no seminário. Foi ela quem me contou que a saudade existe. A partir daí esse sentimento foi se aninhando em meu coração, e comecei a ter saudade do que eu já fora um dia…

… Saudade, quanta saudade
do tempo que eu nem sabia
que essa palavra saudade
infelizmente existia!

E lá no seminário, as primeiras saudades foram da família, dos irmãos, do pai, da mãe que um dia chorando deixei… saudade do Tonho e do Tone, amigos inseparáveis que, comigo, o Toninho, formavam o trio de todas as manhãs caminhando juntos para a escola… saudade de uma caixa de engraxate, meu primeiro ganha pão… saudade das aulas de catecismo, porque depois tinha futebol lá no campinho perto da Estrada de São Miguel… saudade do jogo de taco, da bolinha de gude, do pião, da pipa, que se chamava papagaio, empinada lá no morro onde sempre batia vento forte…

Depois vieram as saudades dos tempos venturosos de seminário. Estudos levados a sério, religião aprendida na teoria e vivida na prática, a capela que encanta por sua simplicidade e eleva o espírito, a casa de férias na Pedrinha, aos pés da Mantiqueira… dos passeios aos ribeirões, cachoeiras, à Pedrona, Pirutinga, Campos, Ouriço, Cachoeirão… lugares hoje tão cheios de donos, mas que naqueles tempos não eram de ninguém e por isso todos nossos… Passeios ao Cachoeirão! Um especialmente nunca será esquecido. Naquela tarde, antes mesmo de chegarmos a ele, de repente os estrondos de trovões no meio da mata. O céu se escurece, chuva torrencial começa a cair, raios de quando em quando entre as árvores, as pedras clareando a picada forrada de folhas e pequenos galhos… Apenas avistado o Cachoeirão, começamos caminho de volta, pois o dia se encurtara e a noite começou a emendar-se àquela tarde já sem luz. E a coisa mais natural aconteceu: meio que sem rumo, não sabíamos se estávamos indo ou vindo. Nossa salvação foi um “ranchinho beira chão, todo cheio de buraco, onde a lua faz clarão”. Pois foi pelos buracos da parede pau a pique que avistamos, ainda um pouco longe, a luz esmaecida de uma lamparina. Foi nosso norte. Percebemos que estávamos fora da mata cerrada e em meio ao capim gordura e uma que outra árvore aqui e acolá. Procuramos não perder de vista aquela luz. Chegados lá, palmas, ô de casa, mas ninguém saiu. Foi então que em meio aos latidos dos cachorros, alguém do grupo gritou: São os meninos dos padres! Não demorou, uma porta se abriu e um casal de velhinhos nos recebeu… Contamos nossa história… fritaram bolinhos de fubá e nos deram junto com algumas lamparinas de bambu e querosene… e partimos, depois de nos terem mostrado o caminho que dava na igrejinha de são Lázaro. Dali até a casa seriam mais uns dez km, sempre morro abaixo. Bendito ranchinho beira chão!

Mas os caminhos da vida deram voltas e um dia voltei à periférica Ermelino Matarazzo de minha infância. Voltei para a casa de meus pais, das irmãs Cecília e Helena e do irmão Luiz. Voltei para essa casa onde, 22 dias depois, você apareceria simplesmente e somente para pedir ao meu pai que deixasse a Lena ir ao cinema com você. Simplesmente e somente? Não! Nas suas segundas intenções, iria funcionar o plano de conhecer o irmão da Cília e da Lena, suas colegas de fábrica, que havia saído do seminário. Deu certo o plano. Nós nos vimos e imediatamente algo nos disse que havíamos sido feitos um para o outro.

Um dia, namoro já caminhando firme, você me mostra a foto de sua turma na escola, o mesmo Grupo Escolar Ermelino Matarazzo, que começara a funcionar em 1949, e de cuja primeira turma eu fazia parte. Depois da frustrada tentativa para que eu a descobrisse na foto, ao me mostrar quem era você, instantaneamente me veio à lembrança – ah! a lembrança! – a menininha de rostinho redondo, lacinho de fita na cabeça e… marca registrada sua… uniforme impecavelmente engomado!

Era a menininha olhada com admiração pelos meninos da escola… inclusive por mim.

Ah! lembrança, prima irmã da saudade!

Toninho
04/06/2011

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Dor dorida da saudade,
não saias de mim, não.
Fica, fica cá dentro,
guardada quietinha,
dormindo, silenciosa,
não acordes, não.
Fica, e só desperta
quando eu te chamar,
pois, se assim te comportas,
sempre poderás estar comigo
sem muito machucar.
Fica, dorme,
só acorda quando eu quiser
lembrar do nome dela
e, com ela no coração,
com ela passear de mãos dadas,
com ela prosear, com ela namorar,
até que, até que…
… do sonho eu acordar!

Toninho
07/05/2011.

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Misto de presença e ausência, coisa que não se sabe definir ao certo, é o que sentimos de você, quando estamos juntos. Presença que não se toca, ausência sentida. E nessa mistura, alegria e dor, dor e alegria se misturam também. Alegria, porque você, mesmo ausente, nunca deixará de estar presente; dor, porque a dor sempre foi companheira da saudade. Da saudade que não se apagará. E saudade machuca, dói. Saudade não é coisa fácil de se lidar com ela, ainda mais quando vem como invólucro dessa presença só pressentida, não mais palpável, nunca mais física.

Benê, hoje é o primeiro Dia das Mães no qual, em 46 anos, você não está em nosso meio. Mesmo assim, quisemos comemorar. Porque você não está nem nunca será esquecida. Os presentes que a partir de agora lhe traremos serão nossas lembranças, nossas recordações de dias felizes vividos em comunhão, trabalhos realizados juntos, conquistas conquistadas na luta do que foi nosso dia a dia em família. Presentes a partir de agora serão nossas orações, que todos os dias sobem aos céus por você e para você, pedindo que daí nos acompanhe, mais do que quando estava aqui. Presentes nossos, agora, serão sempre presentes que não se veem, não se tocam, não têm perfume. Ah! perfume têm sim, porque exalam o doce olor de rosas despetaladas em preces que o coração de cada um vai depositando no seu coração, hoje não mais um coração de carne, mas um coração tão grande tal qual o coração de Deus. Alargado ao infinito, seu coração a todos nos acolhe com o carinho que já não é mais só seu, mas de todos os santos, amigos seus, com quem você se juntou na corte celeste.

É nesse espírito, Benê, é respirando esse clima que hoje lhe desejamos Feliz Dia das Mães.

Toninho
07/05/2011

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