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Archive for abril \27\UTC 2011

Hoje é Sexta Feira Santa. Dentro da Semana Maior, é o dia que se veste todo de silêncio. Profundo. Respeitoso. Paradoxo dos paradoxos: um Deus morreu!

A natureza faz silêncio. Hoje não ouvi algazarras de bem-te-vis nem os gritos estridentes dos joões-de-barro. Só o homem – alguns – faz barulho. Os que guardam o silêncio sabem bem o quanto ele nos fala ao coração nesse dia.

Fui ao cemitério. Levei um vaso de flores. Conversei um pouco com você. Deixei algumas lágrimas rolarem soltas…

Abri o “Encontro – Manual de oração”, de Frei Ignacio Larrañaga, e rezei “Réquiem por um ente querido”. Vou transcrevê-lo aqui, misturado a meus sentimentos.

Silêncio e paz. Foi levada para o País da Vida.
Vida que agora você tem em plenitude, Benê. Você vive em Deus. Teve começo para você a eternidade.

Para que fazer perguntas?
Não há resposta. Ou, se quiser, há uma só: para se viver é preciso morrer. É isso que nos fala a cruz de Cristo. Sem morte, não há ressurreição.

Sua morada desde agora é o Descanso; sua roupa, a Luz.
Mas que descanso é esse? Descanso das lides, das caminhadas, das agruras e mazelas deste mundo. Descanso para viver revestida da mesma luz com os discípulos, um dia no Monte Tabor, viram Jesus transfigurado. Vestida de luz, vestida da Luz, você é hoje mais linda que nunca. Para sempre!

Silêncio e paz, que sabemos nós?
Nada. Só mergulhados no silêncio de um túmulo vazio escavado numa rocha, ouvimos sons que não são daqui. Sons que não quebram o silêncio. Que só nele são audíveis. Silêncio e paz se entrelaçam, pois um é fruto do outro: silêncio gera paz, e paz reclama silêncio.

Meu Deus, Senhor da História e dono do ontem e do amanhã, em tuas mãos estão as chaves da vida e da morte. Sem perguntar-nos, levaste-a contigo para a Morada Santa, e nós fechamos os nossos olhos, baixamos a fronte e, simplesmente, dissemos: Está bem. Seja.
Que sabemos nós diante da vontade divina. Só sabemos – é a fé quem nos diz – que tudo o que ela faz concorre para o nosso bem.

Silêncio e paz.

Silêncio e paz venham sobre nós. Você, Benê, que habita nesse reino de paz e silêncio, tranquilize nosso coração, o coração de todos os que, aqui na terra, vivemos a saudade que só será saciada no encontro final. Amém!

Toninho
22/04/2011

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bento vento

O ano era 1962. O dia, 25 de maio, um domingo. A hora? Devia ser lá pela uma da tarde. Vindos de uma visita vicentina a uma família carente, papai e eu chegávamos à casa e…

Bem, antes de continuar, é preciso contar alguns pormenores da manhã desse dia.

Papai, que se chamava Bento, era vicentino já de longa data. Aos domingos, o “Ide em paz!” – que naqueles tempos, como toda a missa, ainda era dito em latim: “Ite. Missa est!” – que o celebrante dizia ao despedir a assembleia, para eles vicentinos significava a missão de visitar as famílias assistidas por eles.

Todos em casa havíamos ido à missa. Enquanto mamãe e os irmãos voltavam para casa, pois havia que se cuidar do almoço, acompanhei papai a uma dessas visitas. Recém saído do seminário, com ele comecei a aprender a viver na prática, aqui fora, o que, na teoria, aprendera lá dentro.

Ermelino Matarazzo, bairro que começara a surgir na periferia da Zona Leste de São Paulo na década de 1940, em 1962 só tinha uma rua asfaltada, em toda a vastidão de seu território: a Av. Paranaguá. Aproximadamente 5km que ligavam a Estrada de São Miguel, trecho da antiga Rio-São Paulo dos tempos de Dom Pedro, na parte alta do bairro, à estação da Estrada de Ferro Central do Brasil e os portões da Fábrica Celosul, do Grupo Matarazzo, então a única fábrica de papel celofane da América Latina. A fábrica ficava às margens do rio Tietê.

Ruas de terra significavam barro em tempo chuvoso, e, no tempo seco, pó. Naquele dia, além de seco, ventava bastante. A família que fomos visitar morava bem distante da igreja, a Capela da Cruz Preta (Uma história que é preciso contar um dia!). Moravam além da Estrada de São Miguel, e o caminho passava por uma enorme área recentemente terraplanada. A cada rajada de vento, nuvens de poeira nos envolviam. Os cabelos de papai, que já eram brancos, ficaram avermelhados; os meus, que ainda não eram brancos, nem sei que cor tomaram. Só sei que os sentia impregnados de pó e desgrenhados.

E foi assim que, voltando da visita, chegamos à nossa casa, na rua Doze, da Vila Paranaguá. Suarentos, empoeirados por fora e por dentro, sedentos, famintos. O que mais queríamos era nos lavar (banho não se tomava com a frequência com que se toma hoje) e nos deliciar com a macarronada da Mamma. Mas…

… meus olhos se depararam com os de uma moça linda, morena, cabelos fartos, pouco abaixo dos ombros, rosto de boneca de louça, olhos nem claros nem escuros, serenos, de luz intensa, penetrantes. Foi como que uma visão de um ser aqui inexistente. Nossos olhares se cruzaram, se penetraram, como que mudaram de habitáculo. Guardei os olhos dela nos meus, e nos dela ela guardou os meus!

A dona desse olhos estava ali simplesmente esperando papai chegar para pedir que a Lena, a irmã caçula, fosse com ela ao cinema. Dada a permissão, elas saíram, já um pouco atrasadas, para pegar o ônibus. O cinema era na Penha.

Além da macarronada, não me lembro de mais nada desse almoço. Aquela visão, como que de um anjo de luz, parecia sentada à minha frente. Foi impossível esquecer aqueles olhos.

Até que, já bem perto de cair a noite, depois de uma trama bem urdida entre as duas, eu fui “obrigado” a acompanhá-las até sua casa, Benê, pois àquelas horas seu pai não gostaria de vê-la chegando sozinha ou acompanhada só pela Lena. Começasse a escurecer, filha de 17 anos não andava sozinha na rua.

Bons tempos aqueles! Feliz dia aquele! Missão bendita a minha, da qual tudo começou!

E até hoje não sei se foi o Bento ou o Vento que me trouxe até você. Só sei que bendigo aos dois, e basta qualquer deles me vir à lembrança para que aquela visão de 25 de maio de 1962 me ilumine de novo os olhos. Absorto, afago suas mãos e, me deixando levar pelo tempo, revivo uma história que jamais terá fim!

Toninho
20/04/2011

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Não que não tivéssemos nossos entreveros. Você, sangue de gaúcha correndo nas veias, e eu, de italiano teimoso, turrão, chegamos às vezes a ir dormir emburrados. Guerra de amor. Nada que um dia ou dois não curassem. E, sem juras incumpríveis, voltávamos às boas.

E esta era a maneira como eu gostava de chamar você: Bem! Benzinho! Benê! Que, na verdade, é a mesma coisa. Se Bem é carinhoso, Benzinho, embora diminutivo, o é mais ainda. E no fundo, no fundo, posso dizer com sinceridade que, apesar das nuvens escuras que a vida traz para a vida da gente, tentando toldar o céu azul de nosso horizonte, o sentimento que me movia a tratá-la assim era o mesmo dos nossos encontros, quase cinquenta anos lá se vão. Bem! Benzinho! Você sempre foi e continua sendo para mim: a primeira e única!

E Benê, por que a mesma coisa? Simplesmente porque Benê nada mais é que a corruptela de seu nome, Benedita, que significa abençoada, bendita, do latim “Benedictus, Benedicta”. Quer bem maior do que ser bendita, abençoada até no nome?

Toninho
18/04/2001

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Hoje a saudade machucou mais uma vez.

Domingo de Ramos: levantei-me cedo. A cerimônia de Ramos começaria só às 10h, mas o coral tinha de estar no local às 8h30, para o último ensaio. Neste ano, aqui na Paróquia São João Bosco, a Semana Santa será celebrada tanto na matriz como nas duas comunidades dos extremos leste – Jardim Aquárius – e oeste – Pôr do Sol – da paróquia. Como no domingo estava escalado outro coral para cantar na matriz, fomos convidados para cantar no Jardim Aquárius.

Tudo isso para dizer que, em meio a tantas atividades destas últimas semanas – ensaios e reuniões preparatórios –, hoje a saudade bateu mais forte do que em outros dias. Lembrei-me do Sábado Santo do ano passado, em que fui comentarista e você, mesmo não estando bem, participou de toda a cerimônia que, é bom que se diga, é a mais linda de toda a liturgia do ano, mas é também a mais longa. E, para espanto meu, você quis ainda participar da procissão do Senhor ressuscitado, depois da cerimônia.

Voltando à minha saudade… Quando o dia começa assim, sinto-me mais fragilizado, e basta um pequeno gesto, uma pequena lembrança, e pronto… até as lágrimas vêm vez ou outra.

Fomos almoçar na casa da Ti. Cacá também fora convidado, mas como queriam fazer uma arrumação na casa, Cristiane e ele não foram. Isabela foi conosco. Como sempre, estava feliz. E ainda mais porque ia se encontrar com a Paula. Como gosta da prima! São as café com leite: Paula, a morena, que puxou a pele de mouros do sul da Itália de papai, e a pele clarinha da Isabela, de algum nórdico perdido nessa ascendência que desconheço. Quando chegamos para pegá-la, estava vestida com o vestido de noiva da festinha junina na escola. Lembrei que você gostava de vê-la nessas roupas extravagantes. Certamente porque se lembrava da nossa Cris, que também gostava disso.

Quando saímos de volta, já era noite feita. Viemos todos tomar café na casa do Cacá. Isabela e Paula vieram em nosso carro. Logo depois que saímos da casa da Ti, que fica num alto e de onde se avistam as luzes dos bairros mais baixos, sem mais nem menos, a Isabela fala: Que saudades da casa da vó Benê, de onde a gente via as luzes lá em baixo! (Da nossa varanda, casa assobradada na frente, subindo para uma das partes altas da cidade, avistavam-se parte do Pedregulho e outros bairros mais distantes.)

Isso machucou. A Paula logo puxou outro assunto, mas eu continuei ruminando o que a Isabela falou. Você sabe como ela é: de repente, assim do nada, daquela cabecinha saem coisas que desconcertam a gente. E assim, desconcertado, fiquei bom tempo.

Já na casa do Cacá, enquanto arrumavam a mesa, meio sem saber o que fazer, comecei a olhar a estante da sala, e…

… bati o olho num rótulo de garrafa, colado num papelão duro, feito um pequeno quadro. Não era um rótulo simples. Tinha sua razão de estar ali. Era o rótulo de um Prosecco, Carpene Malvolti, tomado no reveillon de 2008, e assinado por todos…

…inclusive por você!

Toninho
17/04/2011

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Hoje fiz uma coisa que me deixou feliz. E me deixou feliz, Benê, exatamente porque sei que você também ficou feliz com o que fizemos nossos filhos e eu.

Dia 8, aniversário da Cris (aquela menininha que gostava de vestir roupas onde cabiam duas dela, vestidões arrastando pelo chão, está completando 36 anos!), eu sei que você faria de tudo para, de um jeito ou de outro, não deixar passar a data em branco. Como era meu costume, um mês antes eu já começaria a mostrar para você que a situação não permitia qualquer gasto além do rotineiro. Você faria de conta que estava entendendo, mas ao chegar mais perto do dia começaria a me fazer insinuações de que pelo menos alguma coisinha precisava ser feita. “Tadinha da Cris, está lá sozinha em Guará. Não podemos fazer isso com ela!” E se fosse outro filho, as história seria a mesma, só mudando, é claro, a motivação.

Pois é. Como sei que você continua aqui presente, fiz de tudo para arrumar um jeito de comemorar o aniversário dela. Dia 8, uma sexta feira, não foi possível. Nem no sábado. Mas, no domingo, acabamos conseguindo reunir quase todos e fomos almoçar juntos em Quiririm. Só não tiveram como ir o Cacá, a Cristiane e a Isabela. Estávamos lá a Ti, o Ricardo, a Paula, o Paulo, a Rose, a Mariana, o Rodrigo, o Marcelo, a Cris, o Márcio e eu. Na cantina Gagliotti, onde nós dois almoçamos uma vez, lembra-se? E como gostamos, ficamos de voltar um dia com a família.

Foi um encontro muito bom. Chegamos por volta das 14h e saímos às 16h. Almoçamos numa mesa debaixo daquela árvore, naquele canto do terreno ao fundo da sala, que só é fechada nas laterais. Ambiente descontraído. Estávamos todos bem à vontade. Conversamos bastante, quase de tudo. Por exemplo, falamos de… Bem, não preciso relatar tudo, porque sei que você ouviu tudo. Estávamos todos alegres, felizes por estar juntos, como têm sido nossos encontros. Herança sua, Benê, que gostava de reunir os filhos. Para mim é uma bênção. Rogue a Deus para que nossa família continue sempre e cada vez mais unida. Numa união alicerçada no verdadeiro amor fraterno, que saiba superar as pequenas e normais diferenças entre cada um, sem deixar espaço para que as dificuldades e lutas do dia a dia nos impeçam de aproveitar todas as “nossas” datas para nos encontrar e manifestar nossa alegria.

Ao final, entra uma moça acompanhada por um violonista, que ia passando por entre as meses e cantando Io che non vivo più di un’ora senza te… Pareceu que você estava ao meu lado. Me lembrei da primeira vez que ouvi essa música: em nossa lua de mel, num cinema lá em Marília. Segurei firme, mas não teve como. Disfarcei, saí de fininho e fui terminar de chorar lá na toalete…

Toninho.
10/04/2011.

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Ah! Benê, é quase impossível me pôr a escrever todas as vezes que algum fato, alguma coisa me traz você ao pensamento. Agora há pouco, por exemplo, tive de dar uma saída e soprava aquele vento delicioso, já com cara de outono. Não era uma brisa suave nem o vento impetuoso que curva as árvores, como você fala na oração. Era um vento refrescante, vento sul, parece, como dizem os entendidos. Vento que balouça a copa das árvores e lhes derruba as folhas amarelecidas.

Como não me lembrar de você, que sempre recordava uma ida nossa a Campos do Jordão, entre meio outono, meio inverno, já bastantes anos faz. Como você sonhava voltar lá para admirar a maravilha que então pudemos ver: folhas de plátanos amareladas forrando o chão e outras tantas caindo dos galhos, batidas pelo vento que, mesmo ao meio do dia, com o sol brilhando no céu, obrigava a gente a ficar agasalhado. Você se deslumbrava. Como você amava essas coisas simples da natureza. Simples porque belas! Ou belas, porque simples?

Pois é. Mas estou aqui na nossa rua mesmo, em São José, que também é dos Campos, mas não do Jordão. São José, que está numa região privilegiada do Vale do Paraíba, plantada em meio a colinas e pequenos vales, mais encostada à Serra da Mantiqueira e não longe da do Mar. Com isso, recebe influência dos ares frios que sopram nos altos da Mantiqueira, mas que aqui chegam já amenizados, galopando pelos montes e baixadas e refrescando ruas e praças e casas e pessoas…

Ah! Benê, meu vento outonal que um dia balançou meu coração e para sempre o arrebatou para si! De onde você está, bem juntinho de Deus, sopre sempre, Benê, sopre esse vento sobre mim.

Toninho.
21/03/2011.

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saudade

Hoje acordei com saudade de você. Tomei café e fui fazer uma visita ao Parque das Flores. O dia está do jeito que você gosta. Apenas algumas nuvens claras, refletindo timidamente os raios do sol, que não consegue vencer a barreira de nuvens escuras, espessas, cobrindo a maior parte do horizonte que consigo divisar. No túmulo, não sei por que, estão tristonhas as flores da floreirinha que a Ti e eu lá deixamos.

Choram você?

Eu sei que eu chorei. Chorei sua falta. Seu sorriso. Seu abraço. Seu caminhar ao meu lado. Sua maõzinha fechada, do jeito que, desde o tempo de namoro, eu gostava de segurar, envolvendo-a toda com a minha. Você lendo. Você escrevendo. Você cozinhando. Lavando roupa. Limpando a casa. Você, mãe. Você, esposa. Você, amada. Você, amante. Você, luz dos meus olhos…

… sei que você está me ouvindo. Sua resposta está vindo na forma de uma chuva mansa que, de repente, caiu por dois ou três minutos. Não mais que isso. Mas o suficiente para que o Marcelo, que se levantou há pouco, tivesse que correr para recolher a roupa do varal. Enquanto eu…

… bem, eu estou simplesmente absorto, ouvindo e vendo sua resposta, que começou num repente e num repente se acabou!

Toninho.
20/03/2011.

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