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Chuva Criadeira

Chove a noite toda. “Acho que começou a estação das águas”, pensou. Até seria bom chover assim. Uma chuva mansa e criadeira. Chuva-mãe. Chuva-prenhe. É dessa chuva que nascem as flores e os pensamentos bons. É como se Deus lançasse um véu sobre a terra. Véu tipo véu mosquiteiro de berço. Véu que protege. Vou caminhando pelas ruas lavadas e as árvores como que agradecendo fazem tapetes amarelos, rosas, roxos, brancos…

Ah! como é preciso agradecer! Pelos tons da minha vida, pela rotina encantadora de Deus renascendo em mim e na natureza.

30 de janeiro

30 de janeiro, ah, que data!
Para mais doer o coração
ouço Fábrica de Mágicas.
Zezé e Simões cantam:
Estas são as manhãs, que cantava o rei Davi.
Hoje é o teu dia santo, e cantamos por ti!
Desperta, meu bem, desperta,
veja que já amanheceu!…
Desperta, Benê, desperta,
basta deste sono que dois anos já dura.
Acaso de nós te esqueceste?
Não vês qu’inda marejam os olhos
quando te sinto e no entanto
te ver, tocar, abraçar não posso?

Desperta, Benê, desperta,
hoje é o teu dia santo!

Pai.
Se me dado fosse tal ventura, partiria em sua busca.
E não deixaria, como deixei, tantos sonhos para amanhã.
O amanhã nunca chegou.
A duras penas, aprendi que o presente
é o momento a ser vivido com toda a intensidade
e jamais deixado para depois.
 
Se asas me dado fosse ter,
partiria em sua busca na velocidade do vento,
para poder realizar um ao menos de tantos desejos seus…
que morreram desejo.
Você sempre achava possíveis
coisas que impossíveis eu julgava.
Não acreditava que todo sonho, uma vez sonhado,
só não se realiza se nós o tornamos impossível.
A montanha, tenha ela a altura que tiver,
sempre estará sujeita a ser vencida pelo esforço do homem.
Se deuses queremos ser, deuses seremos,
a despeito da pequenez e dos limites do ser humano.
Deus em nós colocou rasgos de sua onipotência!
 
Sonhar alto, como você sempre sonhou,
alarga os horizontes, quase infinitos os tornando.
Assim, me dado fosse, partiria em sua busca,
rasgaria os céus, e a traria não mais nas asas do sonho,
mas da realidade presença,
tendo-a em carne e osso, viva, palpitante,
mesmo que por um fugaz momento.
Que não seria fugaz,
pois a aura da eternidade já faz parte de você!
 
Toninho
04/06/2012

Oração da manhã

Meia noite e 39… Acordei. Como há um chafariz no jardim interno, que funciona a noite toda, de início me pareceu que era o barulhinho dele. Não era, não. Era chuva tamborilando no toldo plástico que protege o corredor embaixo do nosso. Saí para admirar. Depois de mais ou menos 120 dias sem uma gota d’água vinda do céu, Brasília estava vendo chuva…Cheirinho de chuva, ar úmido de chuva, barulho de chuva, chuva regando a terra, terra sedenta e seca.

De manhã, levantei-me no meu horário de sempre, arrumei-me depressa, desci e saí pela portaria para o jardim da frente. Árvores e arbustos, imóveis, em profundo silêncio, recolhidos em oração de ação de graças pela bênção da água. Tive plena convicção de que outra coisa não faziam senão louvar e bendizer a Deus porque os havia saciado em sua longa sede. Pouco depois, os pássaros começaram a acordar. Sempre soube que o João-de-barro só anda em casal. Mas é tanta a algazarra que fazem todas as manhãs que dá a impressão de um bando. E hoje não foi diferente. Foram os primeiros a quebrar o silêncio das árvores. Mais ao longe, um bem-te-vi me pareceu solitário, pois cantava e não encontrava resposta. Sabiás, com seu canto dolente e triste, ajudaram a acordar a manhã. E quando me dei conta, estava formada a orquestra para saudar a aurora de mais um dia. Mas não conseguiram despertá-la. Em vez de clarear, o dia se anuviara novamente, e a chuva voltou a derramar mais água sobre a terra, que a sorvia avidamente.

Retirei-me para a capela. Ao cantarolar da chuva que caía mansamente, foi mais fácil fazer a oração da manhã.

Toninho
26/09/2011.

Carros, luzes e um borbulhar de saudades no coração… é quase que a rotina de meus inícios de noite. Caminhando pela frente do prédio, margeando jardins de um verde um tanto quanto monótono e agora desbotado pela seca, vez por outra paro na lateral que dá para uma avenida pouco movimentada durante o dia, mas de um perpassar quase contínuo de carros de manhã e à noite. Nesta hora, eles parecem mais agitados, movidos quiçá pela ânsia da volta à casa, pela busca do descanso após um dia de labuta intensa.

É um rosário de contas amarelas que vem, entremeadas de grandes espaços, enquanto as que vão, avermelhadas, rubis, formam como que um luzeiro ininterrupto.

Caminho, caminho, desfiando as contas de meu rosário, vou e volto. De repente, paro para olhar. É então que lembranças me vêm, povoam minha mente e povoam de saudades meu coração. Saudades dela, saudades deste e daquela, daquela e deste… saudades… saudades… saudades… Os olhos não choram, mas seu brilho opaco denuncia a presença neles de um orvalho morno, que a aridez destes ares se encarrega de secar.

E volto a deambular, afastando-me das contas amarelas, vermelhas, só murmurando as ave-marias de meu terço. Que servem também para aquietar este peito, trazendo à mente as lidas e tarefas do dia de amanhã.

Toninho

19/09/2011

Entre as teorias sobre a origem do homem, há os que, na esteira de Darwin, teórico da evolução das espécies, dizem que o ancestral mais recente do homem é o macaco. Sem questionar se estão certos ou errados, como também sem me apegar ao que diz ipsis litteris o texto, digo logo que acho mais nobre o que afirma a Bíblia: “Então o Senhor Deus formou o homem do pó da terra, soprou-lhe nas narinas o sopro da vida, e o homem se tornou ser vivo” (Gn 2,7).

Simplesmente imagino Deus numa tarde de outono, contemplando as maravilhas da natureza que criara. Viu que ali faltava algo. Agachou-se, começou a brincar com o barro, plasmou com ele um boneco, achou-o bonito, mas sem vida. Inspirado, “soprou-lhe nas narinas o sopro da vida, e o homem se tornou ser vivo”. Estava criada sua obra-prima. “Mas… que será que ainda está faltando” – pensou. Ah! já sei. “Não é bom que o homem esteja só. Vou dar-lhe uma companheira que lhe corresponda.” E aí, até ele se surpreendeu com a maravilha que criou. Sorrindo, apresentou-a para Adão que, extasiado, exclamou: “Desta vez sim, é osso de meus ossos e carne de minha carne! Chamar-se-á ‘mulher’, porque do homem foi tirada” (Gn 2,23).

Mais feliz que Adão, não tive uma, mas várias mulheres. A primeira, é claro, foi minha mãe. Mesmo analfabeta, foi a mulher forte que, quase sem a ajuda de papai, que labutava de sol a sol para levar o pão para nossa mesa, educou quatro filhos com a sabedoria dos simples. Não poupou a vara quando necessário, mas hoje nenhum dos filhos se queixa de que tenha sido assim. Cedo, porém, me ausentei de casa para estudar e, após o retorno, pouco tempo convivi com ela, pois logo me casei. À distância, contudo, nunca deixou de acompanhar nossa vida, até que Deus a levou depois de 88 anos bem vividos.

Casados, eis que já no primeiro ano de nossa vida a dois, surge nosso primeiro rebento. Rostinho redondo, pele morena, olhos castanhos roubados da mãe, vivos e buliçosos. Linda como uma flor! Patrícia Carla foi o nome que lhe demos no batismo. A mulher decidida e que sabe bem o que quer já se manifestava na criança que aos 4 anos começou a frequentar a escola. E crescia em formosura e sabedoria. A mãe, que já aos nove anos mexia nos livros do tio e lia romances, desde cedo incentivou-a à leitura. Patrícia, como os irmãos, viveu rodeada de livros. Rabiscados – diz ela que pelos irmãos –, eles existem até hoje em nossa biblioteca. Narizinho arrebitado, senhora de si, teve vários namorados, mas casou-se com o Luís Ricardo, casamento que perdura há 19 anos. Orgulho-me de ser pai de tal filha. (Aliás, se a estas alturas da vida pelo menos esse orgulho me é permitido, orgulho-me de todos os filhos que tenho.)

Depois dela, vieram o Paulo Henrique e o Marcelo Renato. Marcelo é solteiro e Paulo, em 2010, se casou com a Rose. Os dois já se conheciam há alguns anos, mas a família só veio a saber da Rose não faz muito tempo. Tempo, no entanto, que foi suficiente para nos revelar a meiguice e simplicidade que lhe são próprias. Professora, essa raça parece estar em extinção, tal o menosprezo que nossos homens públicos têm pela cultura e educação em nosso país. Aliás, com o mau exemplo vindo de cima, toda nossa sociedade pouco apreço tem por essa profissão. E de fato são tal mal remunerados os mestres do saber que, num mundo que valoriza muito mais o ter que o ser, a busca primeira é por profissões que rendem mais. Idealista, a Rose continua sua luta. Inglória, dirá alguém, mas que não deixa de semear o bem em corações. E o bem sempre dará frutos.

Dias atrás, a Maria Paula completou 14 anos. É a filha da Patrícia e do Ricardo. No buquê de flores femininas que me rodeiam, é botão desabrochando. Quando nasceu, era fotocópia tão idêntica da mãe que, lá pelos seus seis ou sete anos, ao lhe mostrarem a foto da mãe bebê, dizia que era ela e não a mãe. O sangue mouro do bisavô paterno tingiu-lhe a pele com a cor do jambo. Pacata, meiga, educada, só é teimosa com o pai e a mãe. Aluna há dez anos de uma das boas escolas de São José, a Monteiro Lobato, sempre esteve entre os primeiros da classe. Quase todos os dias vem para a casa do vô depois das aulas. Quando chega dizendo que teve prova e lhe pergunto como foi, invariavelmente responde: Mais ou menos. Poucas vezes, entretanto, a nota desse mais ou menos é menos que 10!

Ao entrar para a família, Rose trouxe, de seu primeiro casamento, mais uma mulher: a Mariana. O Paulo a adotou como filha, ela o adotu como pai e amigo, consequentemente eu a adotei como neta. Há pouco, acabou de se formar esteticista, que, para mim, era uma profissão simplesmente para cuidar da beleza das pessoas. Eu mesmo, no entanto, já fui alvo de ela demonstrar que não faz apenas isso. Examinou uma pequena manhca no meu rosto e disse que aquilo poderia vir a ser um câncer de pele, apontando em seguida os cuidados que deveria tomar. Ou seja, já lucrei com sua vinda.

Depois de dois filhos homens, eis que nos vem mais uma filha mulher. Maria Cristina é o nome dessa outra boneca. O sorriso no rosto ela o trouxe já do parto e a acompanha até hoje. Sorriso e beleza que guardam por trás a menina corajosa e destemida que é. Com a família toda morando em São José e Jacareí, e solteira ainda, mora sozinha em Guará. Agora, numa casa pequena, mas em 1999/2000, também só, morou um ano em nossa casa da Gustavo Molica, que era enorme. Só, e Deus. Só e seu Anjo da Guarda. Mesmo tendo curso superior, luta destemidamente por se manter. Nem por isso o sorriso a abandona. Esse, talvez, seu maior segredo.

Contrastando com a pacatez da Maria Paula, o caçula, Antonio Carlos, e a Cristiane nos deram a Isabela. Vivacidade e inteligência fora do comum. Aprende as coisas com facilidade espantosa. Ai do vô se mexer no computador ao lado dela. “Não é assim, vô!” Não para um minuto. A energia é tanta que tem necessidade de queimá-la ininterruptamente. De pele clara, puxando certamente aos avós maternos, é bela até no nome. Desde pequenina, estuda também na escola Monteiro Lobato. Além do curso normal, faz balé, estuda música, inglês… É rosa ainda em botão!

Quem falta? Ah, falta a intelectual da família, a Cristiane, esposa do Antonio Carlos e mãe da Isabela. Formada em Engenharia Elétrica, com mestrado em Sistemas e Controles, trabalha atualmente na Embraer. Se um avião cai, não sei se lhe podemos atribuir a causa, mas trabalha na área de projetos. Brincadeira à parte, é na verdade, junto com centenas e milhares de outros, responsável pela atualização desse invento fantástico de Santos Dumont. É a mulher que menos vemos na família, pois trabalha de sol a sol e ainda usa horas da noite para estudar, se necessário até em fins de semana.

Bem, e paro por aqui. Mas como, se nada falei daquela que, além de minha mãe, é a origem de todas essas mulheres em minha vida? Esqueço, por acaso, da mãe de minhas filhas, mãe de meus filhos, sogra de genro e noras, avó das minhas netas? De maneira alguma. Depois de mamãe, ela poderia ter encabeçado a lista. Mas foi proposital deixá-la para o fim. Para fechar com chave de ouro essa galeria que pobres palavras mal dizem de sua importância para minha vida. Povoou os dias todos de meus cinquenta últimos anos, de forma física, palpável, visível, trabalhando, vencendo e caindo, sorrindo e chorando, lutando por ideais e novas realizações, incentivando-me a mim e aos filhos em tudo. Ardorosa amante da vida, por quase dez anos batalhou contra a doença insidiosa que a fez passar à minha frente na volta à casa do Pai.

Não te vejo mais, Benê, a não ser em sonho e nas fotos. Não te toco mais, não te abraço, não te beijo. Mas continuas povoando minha mente e coração, pois figura como você jamais passaria pela vida de um homem sem deixar marcas que o tempo consiga apagar.

Toninho

27/08/2011.

Ontem, 22/08, ao ligar a TV já quase no final do Jornal da Band, dei com uma notícia que, para dizer pouco, me causou mal estar. Dizia o comentarista que a expressão “vida de cachorro”, até pouco usada para falar de uma vida difícil, cheia de percalços e longe de regalias, hoje perdeu o sentido. Vida de cachorro em nossa sociedade é vida infinitamente melhor que a de milhões e milhões de seres humanos.

Existir pessoas – pessoas? – que cometem as aberrações exibidas ontem, vá lá, admitimos que existem, e que há inclusive as que cometem coisas piores. É uma triste realidade a baixeza a que chegou o ser humano, mas é, é coisa que existe. A coisa, porém, chega ao grau máximo de desvirtuamento do verdadeiro sentido da vida quando, além de comentar tais loucuras, há quem tenha a desfaçatez de fazer apologia disso tudo. (É bom que se diga, a bem da verdade, que não era esse o teor do noticiário, que simplesmente informava.)

Dizia uma fulana – que preparara para seu câozinho de estimação uma festa de aniversário com os mais variados quitutes, preparados por bufês especializados, que os “coleguinhas” do aniversariante disputavam de maneira não muito “humana”, festa que lhe custara a bagatela de 5 mil reais –, que embora muitos possam pensar que isso seja loucura, que não é loucura não. Os que têm verdadeiro amor por esses bichinhos sabem entender isso!!!

Mas o cúmulo da aberração, da insanidade, foi a declaração de outra “mamãe” de uma cachorrinha depois de o noticiário mostrar uma loja com mais de 20 mil itens próprios para cães, desde roupinhas até os mais finos talcos e perfumes. Dizia ela que ao entrar numa loja dessas gastava sem limites para comprar de tudo para a “filhinha”, pois, para ela e o marido que, por opção, não querem filhos – entenda-se: seres humanos, esses “bichos estranhos” que dão trabalho demais para criar –, a filhinha cachorrinha supria todas as suas necessidades, fazia a alegria da casa!

Não acreditando bem no que acabava de ouvir, senti náuseas, mudei de canal e exclamei instintivamante: Meu Deus, tende piedade de nós!

 

Toninho

23/08/2011.

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